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A história de Eliete e Denil

A história do casal começa em Divino, onde se conheceram e ainda vivem. O casal é de origem agricultora e tomaram gosto pela lida com a roça desde pequenos. Denil trabalhou durante muitos anos até finalmente conseguir seu pedaço de terra que veio de uma herança de família. Desde que começaram o trabalho na atual propriedade, em 1996, a agroecologia já estava presente de alguma forma em suas vidas, com influências de práticas antigas que vinham dos pais e avós, mas também de discussões que eram promovidas pelo Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM), pelo Sindicato de Agricultores Familiares e pela Pastoral da Juventude Rural.

O conhecimento sobre homeopatia, por exemplo, veio da mãe de Eliete, que já tinha participado de alguns cursos sobre o assunto e buscava aplicar os conceitos na roça e ensinar para seus filhos. A utilização de adubos químicos também era baixa, sendo o esterco orgânico o principal adubo utilizado na propriedade. No entanto, na década de 90 havia um forte incentivo das empresas e do governo para a utilização de insumos químicos, principalmente agrotóxicos e adubos. O herbicida Round Up (“Mata Mato”) era o mais popular e acessível para a maioria, além das promessas de aumento da produtividade e diminuição da mão-de-obra.

Devido à relativa facilidade de obtenção do produto, Denil utilizava o herbicida em sua lavoura para controlar as ervas espontâneas. O efeito era o solo “limpo”. Mas essa prática não faz bem para a saúde das pessoas, da terra e de todo o ecossistema. Após vários alertas de Eliete, que já cuidava da horta de maneira orgânica, a resposta definitiva veio para Denil a partir de fortes dores de cabeça e muito cansaço no corpo. Conhecedor da medicina popular, ele procurou em seu quintal uma planta de macaé, reconhecida por seus benefícios curativos. No entanto, o herbicida Round Up usado na lavoura e ao redor de casa havia matado todas as plantas, não sendo possível mais encontrar a erva medicinal.

Denil foi buscar ajuda na casa da sogra que, depois de preparar o chá de macaé com folhas do seu quintal, concluiu que o genro estava intoxicado com o veneno da lavoura. A falta do macaé, os conselhos da sogra e da esposa fizeram com que Denil parasse de usar completamente o herbicida e outros agrotóxicos em sua propriedade. Junto com Eliete, ele tem buscado formas cada vez mais agroecológicas de lidar com a terra e com a família, que hoje conta com os três filhos, um ainda criança (João Antônio), um adolescente (José Manoel) e a jovem Maria Abigair.

No decorrer dos anos, o casal tem atuado cada vez mais para a promoção da produção agroecológica não apenas na sua propriedade, como também no município de Divino, principalmente a partir dos intercâmbios agroecológicos, organizados mensalmente pelo CTA em parceria com o sindicato, que envolvem diversas famílias e comunidades, valorizando os saberes dos agricultores e agricultoras. E muitos frutos foram colhidos nesse processo.

Com as práticas agroecológicas e muito trabalho, a qualidade de vida da família melhorou, a produção ficou mais diversificada e o solo está cada vez mais forte e produtivo. Atualmente, a produção é diversificada, a começar pela horta que gera alimentos para o autoconsumo da família, além da venda para a alimentação escolar e feira agroecológica no município. Já o galinheiro é integrado ao pomar, que possui diversas espécies e variedades, como banana, acerola, pitanga, manga, entre outras. Os pequenos animais passeiam entre as fruteiras, se alimentando dos restos de frutas e ao mesmo tempo adubando e controlando as plantas espontâneas.

Quase toda a madeira utilizada na propriedade vem de uma pequena moita de Eucalipto vermelho que serve para construir cercas e pequenas construções. A família ainda cultiva o café consorciado com a banana e outras árvores. O milho e o feijão também são cultivados de maneira orgânica. Enquanto uma parte da área produtiva está ocupada com pastos, sendo a criação de gado para a produção de leite e queijo uma atividade muito importante para a família e também para todo o sistema de produção. A principal fonte de adubo aplicado na propriedade é o próprio esterco de gado, utilizado na horta, lavouras, jardim e pomar. Atualmente, antes de ser utilizado, o esterco é transformado em húmus fresquinho através do minhocário que eles construíram. Outra novidade, que veio com o aprendizado nos intercâmbios e encontros, foi o uso da capoeira-branca na alimentação animal. Essa árvore é nativa e ocorre naturalmente nas lavouras sendo uma fonte alternativa excelente de proteínas.

Os avanços com a agroecologia não estão apenas dentro da propriedade. Atualmente, Eliete é presidente do Sindicato e integrante ativa da Organização de Mulheres de Divino, atuando na mobilização dos agricultores e agriculturas e contribuindo para a construção da agroecologia também a nível político. O casal participa mensalmente dos intercâmbios agroecológicos, trocando e compartilhando conhecimentos, sempre na busca por melhorias e mais ensinamentos. Mesmo com uma caminhada tão cheia de conquistas e potencialidades muitos desafios ainda estão pela frente.

O manejo da pastagem é um deles, ainda há poucas árvores no pasto e estas são importantes para manter a qualidade do solo, diminuir o escorrimento de água das pastagens e melhorar o conforto animal, dentre outras coisas. O plantio de água, com a construção de caixas secas, caixas cheias, barraginhas e terraços também são estratégias que eles pensam em adotar para diminuir a erosão do solo e aumentar a infiltração de água. Falando nisso, segundo o casal, a falta d’água está se tornando um problema sério no município, mesmo que eles não tenham problemas de falta de água na propriedade. O cuidado com o solo da pastagem pode ajudar a aumentar a água, pois como o próprio Denil diz, temos que cuidar do solo para cuidar da água, e para isso o manejo das pastagens é fundamental.

Outro desafio é que muitos agricultores familiares, inclusive alguns vizinhos de Eliete e Denil, continuam utilizando o manejo convencional, com baixa diversidade de plantas e alto uso de insumos químicos, inclusive agrotóxicos, mas a família não desanima! Uma prova são os filhos que querem continuar trabalhando na terra, inspirados pela história de luta e amor de seus pais. No trabalho pela agroecologia, a luta diária de Eliete e Denil faz a diferença e junto com seus filhos nos enchem de esperança e energia para juntos construirmos um novo mundo, com outros valores, novas agriculturas e alternativas e um outro jeito de cuidar da terra e da vida.

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