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Coragem pra seguir em frente

“Meu nome é Renata Vilete de Amorim e moro nos Teixeiras, uma comunidade do município de Divino. Quando eu tinha 18 anos, eu fui morar na cidade pra trabalhar como doméstica. Eu tinha “fugido” da roça, mas fugido entre aspas, porque você chega num ponto que não tem renda, jovem não tem renda na roça, então você tinha que ter autonomia do seu dinheiro e aí eu fui trabalhar fora. Eu morei em várias cidades: Juiz de Fora, Carangola, Macaé, Salvador... mas eu falo que se eu tivesse um espaço de formação junto ao CTA, na minha juventude, eu não teria ido embora, eu teria ficado na roça e lá eu faria gerar renda. Hoje a gente planta milho, feijão, café, cana, mandioca; a gente tem horta e pés de fruta; a gente tem galinha; a gente tem diversidade e é na roça que a gente tira o nosso sustento”.

É assim que Renata começa a nos contar a sua história de luta. Aos 18 anos saiu do campo em busca de oportunidades, mas segundo ela, a única coisa que encontrou foi o vazio. “Eu acho que esse tempo que eu passei fora foi muito vazio porque na roça a gente tem muita riqueza”, reconhece.

Em 2001, resolveu retornar para a sua cidade porque o seu pai havia sofrido um derrame devido ao trabalho na lavoura com agrotóxicos, como ela mesma explica: “A gente nunca trabalhou com veneno na nossa terra, mas teve época que a gente trabalhou de meeiro e na terra dos outros era submetido a usar o veneno. Com isso, o meu pai perdeu a saúde. Não tinha oito dias que tinha jogado agrotóxico na lavoura, ele foi trabalhar, teve o derrame, e ele tem a sequela disso até hoje. Nessa época que ele ficou doente, eu não morava em casa, eu morava em Salvador. Eu voltei devido à doença do meu pai, eu tava grávida também, mas esse não era tanto o foco de eu tá voltando pra casa, era mais a doença dele mesmo porque a minha mãe e meu pai sozinhos não tinha como os dois ficarem lá na roça, iam ter que ir pra cidade. E aí o que aconteceu? Eu vim com a Tamara na barriga e fui alvo de olhares e rumores”.

Em 2006, Renata teve o seu primeiro contato com o CTA. Ela e a sua família já ensaiavam os primeiros passos na agroeocologia, através de um curso de homeopatia que ela havia feito no Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar de Divino: “Porque até então eles nem sabiam o que era agroecologia, trabalhavam no meio sustentável, mas nunca tinham ouvido falar na palavra agroecologia. E aí a gente foi trabalhando, eu fui me envolvendo com a agroecologia, as meninas que tavam à frente do Sindicato me convidaram pra participar da Comissão de Mulheres, depois eu me envolvi com o Programa de Formação Feminismo e Agroecologia do CTA e as coisas foram fluindo. E aí nesse meio tempo a gente começou a valorizar a agroecologia porque tudo que a gente começava a plantar e a cuidar mais, a terra dava retorno pra gente. Plantas que não tinha lá, passou a ter de novo. Pássaros, animais, tudo o que não tinha mais, foi se regenerando. Igual, quando tem jabuticaba, os gambás vem tudo comer as frutas. Eles não comem as galinhas, nem os ovos, eles comem as frutas. E é assim a nossa construção da agroecologia lá em casa. Antes a propriedade era pelada, hoje tem muita variedade, quase não tem espaço para plantar. Muitos falam: ‘Que bagunça!’ Mas a nossa bagunça é organizada. Na agroecologia é isso, diversidade e chão coberto. Muita coisa mudou pelo meu envolvimento na agroecologia, hoje eu sou agricultora familiar agroecológica e consigo fazer muitas pessoas acreditarem nesse modelo de vida”.

Além de agricultora familiar agroecológica, Renata também é artesã. Junto com a sua mãe, começou a fazer bonecas de pano, de palha e de barro, e hoje é coordenadora da Casa do Artesão e da Artesã de Divino. “A Casa é uma coisa que abriu o horizonte pra mim e pras meninas. Nós somos 14 mulheres da agricultura familiar, e tinha várias que não tinham onde vender, que não tinham mercado e não sabiam como vender. Elas sabem fazer o artesanato no maior capricho, mas não tem o dom de tá lá pra vender e aí eu tomo conta. Abro toda sexta-feira, coloco bilhetinho na porta falando que a gente vende queijo, que tem encomenda de doces...Tudo o que as mulheres fazem a gente coloca lá no recadinho”, conta orgulhosa.

Participando do projeto Mulheres e Agroecologia em Rede do CTA, Renata faz questão de ressaltar o quanto essa formação foi importante para que ela chegasse até aqui: “Com o projeto Mulheres, eu aprendi que a gente tem que ocupar todos os espaços e reivindicar as pautas e entender que a gente tem direitos, voz e vez. Isso foi um grande passo pra mim, como pessoa e mulher, porque eu tinha medo de falar em público, ainda tenho vergonha, mas medo não. Hoje eu tenho coragem pra tudo, e pra falar o que eu pensar também. Não importa se tá errado as palavras, mas eu falo o que eu penso, eu não tenho receio de falar pra qualquer pessoa”.

Foi com essa coragem que Renata subiu no palco para representar as agricultoras do projeto Mulheres e Agroecologia em Rede e receber o prêmio ODM Brasil das mãos da presidente Dilma Rousseff. “Foi que nem formatura da escola, sabe? Foi muito legal”, ela afirma com os olhos cheios de lágrima.

 

As lágrimas não são por fraqueza, são por orgulho do caminho percorrido. A jovem que “fugiu” do campo para ser doméstica na cidade grande e que depois voltou com o pai doente e uma filha na barriga, “alvo de olhares e rumores”, hoje tem orgulho de ser quem é e muita coragem para seguir em frente. “A maior mudança na minha vida foi perceber que eu sou livre e descobrir que eu posso ser o que eu quiser, sem ficar preocupada com o que os outros vão falar de mim. Eu sou mãe solteira, mulher independente, do movimento e já sofri preconceito. Hoje os outros podem pensar o que quiserem porque as pessoas do movimento me respeitam e me vê como referência. Eu não preciso de marido pra ter respeito porque o respeito eu fiz por onde ganhar”.

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