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Comida de verdade no campo e na cidade

Comida de verdade, conceito construído coletivamente a partir do processo da 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, trabalha com a ideia de produzir alimentos promotores de saúde e de direitos, sob bases ambientais e sociais justas, livres de contaminantes, integrado à cultura e às tradições de povos e populações regionais. Foi neste espírito que algumas dezenas de pessoas debateram este tema no segundo dia do IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), que vai até domingo (03) no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, em Belo Horizonte.

No compartilhamento de experiências positivas que estão em curso na sociedade brasileira ficou evidente a necessidade de haver uma integração e aliança entre campo e cidade e também de colocar o tema alimentação, um dos pilares da vida de qualquer ser vivo, como eixo de discussão política no país.

“É preciso olharmos para o conhecimento tradicional que gerazeiros/as têm em relação ao pequi; as quebradeiras de coco têm com o babaçu e compartilhar isso tudo com a sociedade. A lógica de mercado da grande indústria de alimentos superprocessados fez essa desconexão com o consumidor sobre os produtos locais. Em São Paulo, muitas pessoas nunca ouviram falar de umbu, de baru, de licuri, elementos tão ricos do nosso país e que são a razão de viver de tantas famílias. Queremos provocar o/a consumidor/a sobre esses produtos e fazê-los/as pensar: o que ele financia quando consome comida da agricultura familiar, que não é apenas um alimento sem agrotóxico, mas que está intrinsecamente ligado à melhor distribuição de terra; à conservação dos biomas, da água e da terra; à justiça social”, pontuou Luis Carrazza, que está à frente da Central do Cerrado, um elo de cooperativas de pequenos produtores brasileiros, com sede em Brasília. A central reúne 21 organizações de oito estados e faz a comercialização dos produtos coletivamente.

Na visão de Carrazza, os desafios enfrentados pelos agricultores e agricultoras e pelas pequenas e pequenos produtoras/es de alimentos artesanais são enormes, vão desde a capacidade de produção, o entendimento dos/as consumidores/as do estilo de produção até como escoar os itens. Segundo ele, a sociedade acaba exigindo que essas pessoas conheçam de contabilidade, de certificação digital, de marketing, de questões sanitárias e produção regular e, na opinião dele, esse contexto é um inadequado.

“Quando puxamos o debate sobre produção artesanal de alimento é preciso levar em conta que estamos falando de uma produção ligada a um modo específico de vida, de uma preocupação de abastecimento local, de gente que gera conservação e mantém a cultura e a tradição no modo de fazer. É importante debater sobre tudo isso, sobre a vigilância sanitária, mas ainda não temos no Brasil um norte sobre isso. Quando falamos em risco alimentar, a Vigilância regula uma coisa e o Ministério da Agricultura, outra”, pontuou.

Do Rio de Janeiro, os/as participantes/as do IV ENA puderam aprender um pouco da experiência de 17 anos da Rede Ecológica – Movimento Social de Consumidores. Annelise Fernandez contou que o sistema funciona com consumidores/as voluntários/as que se interessaram por se alimentar de produtos de produtores/as locais. A partir daí, formou-se uma rede de pessoas que buscam ou recebem os itens dos produtores e elas é que fazem a montagem das cestas e as entregas, que ocorrem uma vez por semana. Todos se revezam nos trabalhos. Os/as próprios/as consumidores/as. “A experiência é interessante, pois é um verdadeiro espaço de formação desse consumidor de alimentos orgânicos, num movimento social. Considero um modelo de sociedade que integra campo e cidade.”

O projeto teve início com duas vizinhas, quando uma delas, num trabalho de pesquisa de campo, se sensibilizou com uma produtora de aipim (mandioca) que não tinha como escoar seus produtos. Ela pegou o alimento e levou para o Rio e começou a vender. Hoje, a rede tem 300 famílias consumidoras, 12 núcleos de escoamento na capital e dois núcleos na Baixada Fluminense. “Temos também um sistema de compras online para produtos secos: arroz, feijão, açúcar, café. As compras coletivas são interessantes, pois geram menos desperdício, poupam tempo do/a produtor/a e o pagamento é rápido. Os alimentos frescos, que são mais sensíveis, são mais difíceis, até porque o Rio de Janeiro não é um grande produtor de hortifrútis e pelo fato de como somos um grande centro urbano, há muitas opções em feiras menores. Mas, como temos poder de organização, temos incentivado o fresco também”, contou.

PARTICIPAÇÃO – Na visão de Annelise, não adianta apenas pensar no alimento e na agricultura. É preciso pensar no território como um todo e com participação das pessoas. “A agenda de políticas públicas sobre essa temática é infinita e, para sermos atuantes, precisamos de consumidores/as engajados/as. O grande desafio é incluir mais pessoas no processo e colocar o/a agricultor/a cada vez mais próximo/a da população. Nosso padrão cultural, o que a gente come, nos dá sensação de felicidade. Veja o caso da taioba: era uma verdura muito consumida no Rio de Janeiro, mas que desapareceu dos mercados, não encontramos mais. Então, é preciso voltar a consumir, a demandar taioba. E, claro, experimentar outras folhas, que vêm de outra cultura, de outras formas de se alimentar. Essa é a conexão da comida de verdade com as pessoas”, acrescentou Annelise.

A experiência fluminense não tem o viés único de promover a conexão dos/as agricultores/as com seus/as consumidores/as. “Estamos envolvidos contra o PL do agrotóxico; fizemos uma mobilização contra a especulação imobiliária numa região do rio, nos preocupamos com reaproveitamento de embalagens. Fazemos parceria com ONGs, iniciativas de compostagem, promovendo uma maior comunicação entre produtores/as e consumidores/as. É o campo e a cidade dando as mãos. Mas a rede não quer crescer mais. O que buscamos hoje é incentivar o surgimento de novos núcleos de consumidores.”

Comida é patrimônio

Com a campanha “Comida é patrimônio” em curso desde 2015, o Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), organização que completa 20 anos em 2018, levou para o IV ENA a proposta de a população conhecer melhor os alimentos de cada bioma brasileiro e alertou os participantes sobre os riscos de enfrentarmos situação de fome da população novamente.

O FBSSAN atua com temas ligados à alimentação, saúde, direitos humanos, educação popular. Reúne ativistas, militantes, estudiosos sobre a soberania alimentar, redes, fóruns e organizações com o mesmo propósito. “Em 2013, iniciamos um debate sobre o que estávamos comendo. Porque na nossa visão, comida de verdade é a comida que sabemos de onde vem, quem produz e que tem a ver com nossa história. Hoje, nos causa muita preocupação, 20 anos depois da formação do fórum, o tema da fome voltar à realidade brasileira. O Brasil andou para trás 10 anos nos últimos dois anos, mas acredito que estamos aqui porque estamos resistindo ao desmonte e retrocesso de várias políticas públicas na área de agricultura familiar. Nosso grande desafio é como comunicar isso de forma a mobilizar ainda mais as pessoas e não desmobilizar as ações já em curso”, pontuou Juliana Casemiro, representante do FBSSAN.

O Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) compartilhou seu projeto Cerratinga, que une cerrado e caatinga em pequenos projetos ecoambientais desde 1994. “Inicialmente, nossa decisão estratégica foi investir no cerrado, bioma mais ameaçado e cujo desmatamento é o mais veloz no Brasil. Ele está em ¼ do território nacional. Não queríamos trabalhar em unidades de conservação, então, a opção era atuar em comunidades tradicionais, pequenos/as agricultores/as, apoiando a produção de produtos da sociobiodiversidade, ou seja, de comunidades que estavam tirando seu sustento de produtos nativos e, por isso, valorizam a preservação”, explicou o assessor técnico do projeto, Renato Araújo.

Desde 1994, forma apoiados 566 projetos, que colecionaram experiências, erros e acertos. “Veja o caso do baru. Ele dá em abundância em Pirinópolis (GO). Quando os turistas começaram a se interessar pelo baru, podia abrir pasto, cortar tudo, mas a árvore era mantida inteira. Então a gente vê essa mudança de conduta. Outros frutos de força econômica também fizeram com que as famílias agricultoras e os povos tradicionais mantivessem mais o cerrado em pé, diante da possibilidade de retirada econômica delas. Não é um processo fácil comercializar os produtos, fazer esse trabalho em campo e formar público consumidor”, comentou Renato. Para disseminar e compartilhar essas informações, o Cerratinga criou um site para explicar um pouco mais sobre a riqueza e cada um dos frutos do cerrado, e disponibilizou receitas que podem ser feitas com eles, porque a maioria das pessoas nunca ouviu falar de jatobá, baru ou buriti.

Autor: (a) Cristiana Andrade / Edição: Elka Macedo

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