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Marcha das Margaridas – Tudo tem uma primeira vez

Como cantaram muitas mulheres durante a marcha, elas estavam ali para “fazer zoada na terra alheia”. Além de fazer barulho e chamar atenção, zoada significa também, principalmente neste caso, lutar por seus direitos. Esse é o grande objetivo das mulheres do campo, da floresta e das águas e é isso o que elas fazem todos os dias, cada uma no seu território. E sabendo que as mulheres são como as águas, crescem quando se encontram, para a Marcha das Margaridas elas percorreram milhares de quilômetros, algumas viajaram mais de 30 horas de ônibus para vivenciar essa experiência tão especial. Muitas dessas mulheres estavam ali pela primeira vez e nós encontramos algumas delas para compartilhar com você as emoções que sentiram e suas expectativas:

Thereza e Lêda Nardelli

“Ninguém solta a mão de ninguém” é uma frase que se tornou icônica no Brasil após o resultado das eleições de 2018. A frase, que foi dita pela mineira Lêda Nardelli, se transformou em uma ilustração pelas mãos de Thereza, sua filha. O desenho viralizou nas redes sociais de todo o país e em várias partes do mundo, e depois foi adaptado para camisetas, faixas, bandeiras, além de se tornar palavra de ordem dos movimentos sociais. “Foi justamente a simplicidade da frase e do desenho que tocou direto no coração das pessoas porque naquele momento estava todo mundo precisando estar junto e resistir, mas resistir com esse afeto, com esse amor”, avalia Lêda.

Foto: Wanessa Marinho.

Thereza Nardelli é tatuadora e a artista que criou esta ilustração. Ela é uma grande admiradora da luta dos movimentos sociais e hoje é também apoiadora, por isso aceitou o convite para doar a sua arte como uma das recompensas da bem-sucedida campanha de financiamento coletivo da Marcha das Margaridas. A ilustração criada especialmente para as Margaridas atraiu dezenas de benfeitores e contribuiu para a participação de muitas mulheres na marcha. Thereza não apenas apoiou com a sua arte como também fez questão de, por conta própria, conhecer as Margaridas de perto.

“Eu fiquei muito honrada com esse convite. A Marcha das Margaridas é muito forte e foi uma alegria poder contribuir e fortalecer a luta das mulheres do campo, da floresta e das águas. É a primeira vez que eu participo da marcha, minha mãe veio também e nós estamos super emocionadas. Eu nunca vi um movimento tão bonito, tão organizado, com tantas bandeiras, com idosas participando também, mulheres em peso. É bem emocionante e é disso que a gente tá precisando. Eu fico muito feliz de ver que tem alguma coisa acontecendo”, afirma Thereza.

Lêda, que já milita em frentes feministas em Belo Horizonte, fala com orgulho do caminho que a sua filha está seguindo e da felicidade em poder participar: “Eu já estava querendo vir pra marcha esse ano, aí quando ela me falou do convite pra fazer a ilustração, eu fiquei super emocionada. Eu me emociono muito de saber que a gente faz um pouquinho de diferença no mundo porque se cada um fizer um pouco, a gente vai conseguir. É maravilhoso ver as Margaridas de perto. É uma adrenalina tão grande que eu acho que vou ficar recarregada por um ano e vou levar de volta essa energia maravilhosa pra seguir a luta em Belo Horizonte”, disse.

Paula Bastos e filhas

Foto: Wanessa Marinho.

Outra mãe que também acompanhou as filhas na Marcha das Margaridas foi Paula Bastos. Professora da UnB e integrante do Núcleo dos Estudos Amazônicos e da Gestão de Políticas Públicas, Paula foi transferida há 4 anos do Pará para o Distrito Federal e faz questão de levar as filhas nas grandes marchas, principalmente em defesa da alimentação saudável e da agricultura familiar, para que elas conheçam a luta do povo. “Tudo o que envolva os movimentos sociais é importante de ser mantido, mesmo com a conjuntura que nós temos de repressão”, ressalta.

Colaboradora da Contag, Paula está com as Margaridas “muito mais para aprender do que ensinar”, como ela mesma afirma. Embora já tenha participado de outras marchas, é a primeira vez que suas filhas veem as Margaridas de perto e no momento da foto estavam esperando as mulheres do Pará passarem para se integrar a marcha. “É importante estar aqui primeiro porque são essas mulheres que nos alimentam e elas são muito importantes no campo e na cidade mas, pelo sistema machista e oligárquico que nós temos, é muito difícil as mulheres terem voz, mesmo aqui em Brasília, então é importante mostrar esse esforço, esse trabalho, o movimento, a organização das mulheres e a importância da alimentação saudável. As minhas filhas tem que fazer parte desse processo e daqui elas vão pra casa tomar banho e vão pra escola normalmente contar pros colegas que foram para a Marcha das Margaridas”, destaca Paula.

Marcelo e Laura, de Sergipe

Jovens LGBT, Laura Antonielly dos Santos e Marcelo Barreto também vão ter muitas histórias pra contar sobre a sua primeira participação na marcha, mas nesse caso na volta para casa em Sergipe – a 36 horas de distância de Brasília. No Pavilhão do Parque da Cidade, eles foram vistos todo orgulhosos tirando fotos em vários espaços de preparação para a marcha, inclusive na frente dos banners das oficinas. “Corpo e Sexualidade” foi o tema de uma delas – debate que eles consideram importantíssimo.

Foto: Wanessa Marinho.

“Como eu nasci e me criei no interior, em um povoado do meu estado, lá eu percebo que ainda é um tabu muito grande falar sobre sexualidade e corpo. As mulheres não falam com os seus filhos sobre sexualidade. E os jovens que querem saber mais sobre o seu corpo ou a diversidade que existe dentro da sexualidade, tem que pesquisar, e quando os pais ficam sabendo não querem permitir. Esse trabalho que está sendo feito aqui é muito importante para mostrar para as mulheres que a sexualidade não precisa ser um tabu, é algo que é normal, e que precisa ser tratado como normal”, acredita Marcelo.

“Hoje é bem difícil falar sobre sexualidade tanto para adolescentes quanto para adultos. Os adultos mesmo se perdem e não conseguem explicar direitinho o que é sexualidade e fazer outras explicações dentro desse contexto”, avalia Laura. Os jovens também destacaram a diversidade de temas abordados com as Margaridas na preparação para a marcha, como terra, territórios, maretórios e bens comuns; enfrentamento à violência contra as mulheres; soberania alimentar e agroecologia; saúde mental; ecofeminismo; entre vários outros. “Aqui não se fala só da marcha em si, além de mostrar o trabalho das Margaridas, entra em vários temas, até mesmo o momento político caótico que a gente está vivendo e de uma forma não desrespeitosa ao atual presidente”, destaca Marcelo.

Para Laura, a expectativa para marcha é pacificação e respeito acima de tudo. “É transmitir a imagem que as margaridas querem passar de que as mulheres merecem ser respeitadas, a mulher agricultora tem que ser vista, tem que ser notada, e eu digo porque no meu estado as agricultoras não tem visibilidade”, afirma.

As mulheres do campo, da floresta e das águas lutam diariamente por respeito. Respeito pelo seu trabalho, modos de viver, respeito por suas vidas. O discurso de ódio não tem vez na Marcha das Margaridas. Elas também lutam por respeito ao próximo e buscam praticá-lo no seu dia a dia, por isso é dessa mesma forma que criticam o atual governo do país e, por isso também, nesta marcha não levaram uma pauta para negociar com o governo – as Margaridas decidiram não dialogar com quem não as respeita de volta, com quem não respeita o povo.

O ato “Marcha das Margaridas” aconteceu no dia 14 de agosto de 2019, mas as Margaridas marcham todos os dias e resistem em cada lugar, cada comunidade, cada território em que estão construindo a luta e fazendo a diferença. As mulheres do campo, da floresta e das águas vem a Brasília a cada 4 anos, fazer zoada na terra alheia e recarregar as suas energias, olhando nos olhos umas das outras, para continuar fazendo a resistência.

Autor: Wanessa Marinho

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