Cinco rotas diferentes para percorrer o Espírito Santo. Mais de 120 pessoas (professores, agricultores, estudantes e técnicos) partindo dos quatro estados da região sudeste em ônibus, vans e automóveis. Uma média de 30 experiências visitadas para debater 13 questões fundamentais para a agroecologia: posse de terra e território, segurança e soberania alimentar, conservação dos recursos naturais, saúde, educação, economia e trabalho, mercados, cultura, questões sócio-organizativas, identidade e cidadania, gênero e juventude, conflitos, e políticas públicas. Esta é a Caravana Agroecológica e Cultural promovida pelo Projeto Comboio Agroecológico do Sudeste.
A viagem começou no dia 7 de abril com o grande objetivo de conhecer e reconhecer os desafios e as potencialidades da agroecologia no estado. As experiências que os caravaneiros (as) visitaram incluíram propriedades em transição agroecológica, assentamentos da Reforma Agrária e do Programa de Crédito Fundiário, comunidades quilombolas e indígenas, vila de pescadores, agroindústrias, escola família agrícola (EFA), associações e ameaças às transições agroecológicas como monocultura de eucalipto, cana e pastagem, além de regiões de conflitos relacionados à mineração. Na sexta-feira (10), os participantes das cinco rotas estavam reunidos no campus do Instituto Federal do Espírito Santo, em Alegre, para compartilhar as vivências e participar de uma mesa/debate com o título “O Espírito Santo abençoa a Agroecologia. Amém!”. No sábado (11), último dia da caravana, o grupo promoveu um ato público em prol da agroecologia, pelas ruas do centro da cidade.
“Tô boba! Quando a gente pensa que já viu tudo nesse mundo, a gente percebe que ainda não viu nada!”. Durante os dias de caravana, esta frase foi repetida inúmeras vezes pela professora Irene Cardoso, atual presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) e uma das idealizadoras do Projeto Comboio. Irene, que atua no movimento agroecológico desde o início da década de 80 (quando ainda era chamado de agricultura alternativa), já havia visitado o Espírito Santo em diversas outras ocasiões, e ficou impressionada com a riqueza das experiências agroecológicas do estado e com a ética militante do povo capixaba.
“Nos trabalhos e vivências agroecológicas que eu pude visitar, me impressionou muito o empenho que os agricultores e agricultoras tem de fazer o melhor para o planeta. Eles demonstram uma doação muito grande e uma certeza de que estamos no caminho certo, enfrentando todas as dificuldades, mas também com muitas vitórias. Como disse um dos participantes: não são mais experiências, são trabalhos consolidados de agroecologia no estado. E o que precisamos é dar mais visibilidade, conseguir articular melhor essas vivências e fazer com que elas se ampliem”.
De acordo com a agente de Extensão em Desenvolvimento Rural do Incaper, Joana Junqueira, a caravana foi importante porque promoveu uma integração entre as regiões norte e sul do estado e valorizou as experiências visitadas que, segundo ela, agora saem muito mais fortalecidas. “Eu espero que a partir de agora a união entre norte e sul permaneça. Essa articulação política foi muito mencionada e é necessária pra que a gente continue conquistando mais espaço na política do estado e do Brasil. A gente precisa da força do povo, mas a gente também precisa da força dos representantes do povo pra que eles realmente representem as necessidades e a vontade da população”.
Para quem ainda acredita que a agroecologia está na contracorrente, a professora Irene Cardoso esclarece: “O Brasil é o país que mais consome veneno no mundo e isso já está se revertendo em câncer, como denunciou o Instituto Nacional de Câncer (Inca) essa semana. Não adianta as empresas multinacionais quererem desqualificar os estudos científicos de grupo sérios, como o Inca, que trazem a relação desses venenos com a saúde humana. A população está ficando cada vez mais alerta e o caminho já está posto, basta agora as pessoas quererem seguir. Pra isso, a gente precisa entender que não é só o lucro que importa, tem outros aspectos como a qualidade de vida, da água, do ar, do solo, a biodiversidade, o respeito e a preservação da cultura e da alimentação local, tudo isso é muito importante. E é uma contradição a gente colocar veneno no próprio alimento que come. Um dia, eu tenho certeza, as pessoas vão olhar pro passado e vão ficar escandalizadas da humanidade ter tido coragem de colocar veneno no próprio alimento”.













