Caravana ES (rota Zona da Mata mineira)Ainda era noite quando os passos começaram a soar pelo alojamento do Centro de Tecnologias Alternativas, na Zona da Mata mineira. O horário marcado para a partida era o de 5h da manhã e nos reunimos em uma varanda com telhado de sapê. Deitado na rede, eu observava a agrofloresta que me circulava porque mesmo sem o sol aquele verde se fazia perceber através dos barulhos que o vento, sorrateiramente, fazia soar quando tocava as folhas com a leveza que só ele tem. O frio também se fazia perceber. A umidade do ar era alta, o que só piorava a sensação térmica. Não demorou até que o restante dos integrantes de nossa rota chegassem, então fomos em uma van: eu, Vinícius, Cazé, Liz, Rute, Wanessa e Ezequiel. E tinha também o menino da EFA, Gabriel. Logo atrás, em um carro, vinham Irene, Leandro e Maysa. E assim partimos todos rumo a outras cidades de Minas Gerais, em busca dos novos integrantes dessa caravana. 

  

Entraram as meninas de Pedra Dourada, Priscila e Jaqueline, e o menino de lá (o caladinho), José Carlos. Havia mais dois agricultores familiares na van, Silvano e Edivaldo. E em Espera Feliz, nossa última parada em Minas Gerais, o Bin completou o grupo. Seguimos para a cidade de Ibatiba (ES), onde conhecemos a experiência do Córrego dos Rodrigues. Neste momento nos juntamos ao grupo que havia saído de Lavras (MG), formado por Rubens, Matheus, Bruno e Stephanie. 

  

A história da família Rodrigues com a transição agroecológica começa com um jovem que, por acaso, decide fazer o curso de produção orgânica do PRONATEC, promovido pelo Núcleo de Estudos Agroecológicos do IFES (Instituto Federal do Espírito Santo). Durante o curso e muito devido à sua sensibilidade, o jovem agricultor Reginaldo Rodrigues percebeu que, além de ser menos viável economicamente, a utilização de agrotóxicos representava um risco à saúde porque gerava alergias e intoxicações na sua família e poderia gerar problemas ainda mais graves para quem consumia a sua produção de uvas. 

  

No sítio, entre as diversas experiências compartilhadas, chamou atenção a de compostagem com minhocário. Segundo o relato, ela acontece da seguinte forma: primeiro é feito um composto orgânico com materiais da propriedade como bagaço de cana, frutas podres dos pés de árvore, folhas secas, capim... e tudo é misturado com esterco. Depois de algum tempo em processo de maturação, o composto vai para o minhocário, onde passa pelo trato digestivo do anelídeo (também conhecido como minhoca!) e se enriquece biologicamente. Nesse momento eu não me privo de dizer que ele também se enriquece de energias essenciais a existência da vida, energias que não se dispõem sobre qualquer qualidade material, energias de outra dimensão, que vão além da espacial. E é aí então que o composto está pronto para ser utilizado na agricultura. 

  

Ainda ali, pelo mesmo lugar na propriedade, há uma praga! Mas não é uma praga qualquer. É uma praga sofisticadíssima, fruto de uma relação de simbiose entre um ácaro e uma alga. A relação é a seguinte: o ácaro ataca a folha da planta, sugando dali sua vida à exaustão da folha, levando-a a seu fim. Mas ele não faz isso sozinho, veja bem! A alga, em sua relação simbiótica com o ácaro, se aproveita da fragilidade da planta e impermeabiliza as folhas, tornando inúteis as suas tentativas de cura. Até que, com mais um show de sensibilidade, a agricultura alternativa ao modelo tradicional vigente triunfa: um pesticida orgânico produzido com urina de bovinos demonstra que existe potencialidade no combate. E uma potencialidade fantástica. Em algumas das folhas a combinação funcionou tão bem que quebrou a sofisticadíssima relação simbiótica que já, sem nenhuma pressa, agredia um pé de lichia que havia por ali. 

  

Rumamos então para um consórcio entre parreiras e galinhas. As galinhas ciscam, as parreiras crescem e todos parecem felizes. Parreiras e galinhas, não apenas felizes (e me desculpem os vegetarianos), mas também apetitosos, saudáveis, bem vivos, e acompanhados de toda a vida que tem em volta. Enquanto as parreiras entravam já em sua fase de dormência, as galinhas, como sempre, estavam muito ativas. Pulavam, corriam, cacarejavam e faziam o que galinhas fazem. Galinhas criadas com bem estar animal, até o momento do abate (pelo menos!). E fazendo o que as galinhas fazem, elas impedem a infestação de insetos, nos livram de animais peçonhentos, comem a grama, e ainda por cima, dão ovos! Parabéns equilíbrio ecológico! As uvas cumprem o outro lado da novela: atraem os insetos impiedosamente devorados pelos (agora agradeço à licença poética) “sauróides pós-modernos”. Um equilíbrio que, cabe dizer, nenhuma palavra pode definir tão bem quanto “divino”. E olha que eu não sou um indivíduo dos mais espiritualizados neste planeta. Geralmente não é fácil eu ser tocado com as subjetividades espirituais, mas dessa vez foi. 

  

Logo em seguida, fomos até uma propriedade vizinha onde conhecemos o sistema de criação PAIS (Produção Agroecológica Integrada Sustentável, desenvolvido pelo Sebrae) que consiste na liberdade do animal. No caso desta experiência, na liberdade das galinhas que ocupavam a posição de centralidade no sistema. Funciona assim: disposto em círculos, uma horta circula o galinheiro enquanto um sistema de compostagem com o esterco das galinhas está na periferia e será utilizado na horta do sistema PAIS. O galinheiro ainda possui uma saída para que as galinhas circulem por uma pequena capineira misturada a outras árvores, como o assa-peixe. De acordo com o relato, o sistema PAIS respeita a liberdade do animal de poder circular pelo terreno, o que contribui muito para a alimentação diversificada do animal, aumentando a qualidade de sua carne. 

  

Depois dessa vivência, partimos para um assentamento na comunidade Córrego da Figueira, e fomos acompanhados pelo engenheiro agrônomo Aristodemos Hassem – o Ari, do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). Nesta nova experiência conhecemos um pouco mais sobre a história dos assentados e sobre o Programa Nacional de Crédito Fundiário, que permite ao agricultor familiar adquirir uma propriedade através de um financiamento do Governo Federal. Mas isso é prosa para um próximo relato!

Autor: Filipe Leite

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